Elias Dya Kimuezo - Biografia



Elias Dia Kimuezo
Foto: PAÍS online

O percurso do Rei Dya Kimuezo

 

A obra, cuja preparação durou cinco anos, tem a chancela da Editora O Cão que Lê, contém 128 páginas e nove capítulos. O primeiro refere-se à infância do cantor, o começo (avó Domingas), o II retratando o Bichinho da música e o III, a ida do cantor ao Festival de Santarém em Lisboa.

 

Surpreendentemente, no IV capítulo encontramos o aclamado hino da liberdade “Yá kala yá”, seguindo-se o V relacionado com a cadeia de São Nicolau e, no VI capítulo, “O regresso” (Angola livre). Já no VII e VIII capítulos o leitor encontra relatos de Testemunhas, a Discografia e premiação, as letras já traduzidas do kinbumdu para português e, no IX, uma conversa a dois.

 

O livro ilustrado com fotografias a preto e branco, algumas delas históricas, inclui concertos e festivais, amigos, familiares, retratos de algumas figuras do aparelho governativo do país, recordações e reflexões sobre a vida do cantor e não só.

 

Segundo consta, o Carnaval foi um dos eventos aproveitados para exteriorizar os sentimentos e, neste caso particular, o Rei Mono foi o responsável pelo surgimento de vários grupos ao nível local. Na altura, Elias enquadrou-se na turma do bairro Margoso e posteriormente esteve na fundação do conjunto Makezo Dyage, com mais quatro elementos: Tony Cubanga, Paizinho, André e Capetróleo.

 

Neste conjunto, foi o vocalista principal e tocador de bate-bate! Os instrumentos eram todos rudimentares, desde violas aos tambores de lata. Apesar de tudo ninguém abdicou, pois imperava neles o gosto e orgulho de soltar alguns sons que acabavam por contagiar o público.


“Já éramos a favor da reciclagem sem perceber, porque era uma coisa natural”…, disse Elias, salientando, que na altura era ajudante de João Wilson, nos Caminhos-de-Ferro, como aprendiz e sem ordenado.

 

O cantor tinha aproximadamente 19 anos, e mais tarde decidiu arranjar um emprego na Textang, tendo acabado inserido na sessão de tecelagem. Curiosamente, esta fábrica foi a primeira a entrar no processo de alfabetização.

 

Conta-se que devido às várias situações a que o país não podia fazer face, muitos jovens na altura foram obrigados a empregar-se naquele estabelecimento fabril, e assim, durante as férias muitos deles podiam ajudar a casa e adquirir alguns luxos, como sapatos, calças “terylene”, brilhantina.

 

Por se tratar de estudantes, a alfabetização foi um acto inevitável.

O cantor lamentou o facto de não ter conseguido estudar mais, mas a vida deu-lhe outra escola. “Não que eu gostasse essa com outra, a das carteiras de madeira, cartilha e canudo, mas não tive a sorte. No entanto, sei da sua importância”, disse.

 

Elias Dya Kimuezo recorda que na época os rapazes trabalhavam clandestinamente, e só com o conhecimento da mãe, uma vez que o pai era mantido na ignorância, não se apercebendo de nada, por largarem às 12 horas e os pais chegarem às 12H 30.

 

A seguir ao almoço em família, os rapazes voltavam para o trabalho para arranjar dinheiro para suprir as suas próprias necessidades e para a causa comum, a luta de libertação. Nessa altura, Elias mergullhou no Dikindus, o conjunto dos Operários da Textang, obrigado pelo vínculo laboral, e mais tarde, ainda na senda das turmas, enquadrou-se nos Kizombas, conjunto onde se encontrava Sebastião dos Santos. O cantor recorda que foi em 58 que actuavam naquelas famosas farras do Sambizanga, no Salão Malanjino.

 

Para Elias Dya Kimuezo, aquele foi sem dúvidas o tempo de glória, uma vez que conseguiu aperfeiçoar a sua arte que culminou com a sua primeira actuação pública, no Cine Miramar, e curiosamente, enquadrava-se num espectáculo de uma consagrada senhora, a cantora brasileira Ângela Maria. Segundo realçou, “nem sempre foi só a música…, ainda jovem foi atleta por influência do primo Domingos Capindiça. Correu pelo Atlético de Luanda com o já falecido Said Mingas, Zé Demógenes, Gamboa, tendo mais tarde mudado para o Ferroviário, onde fez parte da corrida com conhecidos nomes do nosso atletismo, nomeadamente Oliveira Santos e Tubarão Piza, mas infelizmente a família, inclusive Capindiça, também não queria.

 

Naquela altura, a música e o atletismo não eram consideradas profissões sérias, ou por outra, não havia que se destacar, estar num patamar muito acima, porque senão era simplesmente um vagabundo que nunca poderia sustentar a família! Nesta óptica, a sociedade de então tinha as suas regras, muito amargas e difíceis de gerir, mas mesmo assim davam o peito e a alma por um sonho, por uma causa.

 

Quando se juntou ao conjunto Dikindus, Elias tinha 22 anos e posteriormente passou para o agrupamento Ginásio, como instrumentista, onde se juntou ao também cantor e guitarrista José Eduardo dos Santos, actual Presidente da República, Pedro de Castro Van-Dúnem (Loy), Faísca, Mário Santiago (vocalistas), Brito Sozinho e Buanga, também conhecido por Balduíno, homens nobres que mais tarde formaram durante a guerrilha o Grupo Nzagi, uma emanação dos Kimbambas do Ritmo, o grupo do musseque Sambizanga.

 

Ida para Lisboa

 

Por sorte surgiu o Festival Folclórico das províncias do Ultramar e Elias foi enviado para o evento com o grupo de Rebita do Mestre Geraldo, os Marimbeiros de Duque de Bragança (Malange) e os Kaxopos da Muxima, isso através do Centro de Informação de Turismo de Angola (CITA).

 

Uma boa selecção do Ultramar, para representar a província de Angola no Festival de Santarém, em Portugal, a Metrópole, como lhe chamavam. Fizeram a viagem de barco e entre enjoos, saudade e medo. Elias recorda que nesta viagem a mãe e a avó Domingas nunca lhe saíam do pensamento.

 

Segundo ele, a mãe sempre dizia: “menino é preciso andar para ver, ver para conhecer, é preciso ver! Andar para ver, ver para conhecer, essa frase da mãe nunca soou verdadeira. Queria saber voar, sair daquele sítio onde só avistava aves e água, nenhuma terra, nada de árvores, onde o tempo não passava”.

 

Recorda ainda a saudade dos domingos e da família, que fazia o peito doer. A partir daí concorda que a sua mãe tinha de facto razão: era preciso andar muito para ver, e para isso, era necessário chegar lá primeiro, para poder ver e só assim poder dizer “conheço”.

 

Foi o tempo que demorou essa viagem que o levou a criar “Mualunga”, mar em português. Era quase uma ironia, uma frase mais da sua mãe se fez canção. Por fim chegaram, foi-lhes permitido usar os seus trajes, mas tiveram que aprender o Vira, uma dança regional portuguesa, tudo isso para a cerimónia de encerramento do festival. Saíram muito bem! “Fiquei em segundo lugar, faziam-nos muitas perguntas, éramos uma raridade”.

 

Conta-se que num conjunto de vinte e oito concorrentes, e sendo do Ultramar, o segundo lugar era um elogio, mesmo que o festival fosse internacional. Depois deste festival, Elia Dya Kimuezo trabalhou na Casa da Comédia em Lisboa, na rua das Janelas Verdes, e ali gravou o seu primeiro disco, pela Valentim de Carvalho. Em Santarém, o seu desempenho no festival e de toda a equipa da província de Angola mereceu da parte dos críticos e analistas portugueses daquela época, muitos elogios, e foi nessa altura que o filho de Valentim de Carvalho, o Vasconcelos, lhe fez o convite para esta primeira gravação.Na altura encontrava-se por lá também Barceló de Carvalho “Bonga”, seu grande amigo, o já falecido Alberto Teta Lando e Rui Mingas. Foram as primeiras pessoas convidadas para gravarem o disco com ele. Prontamente surgiu um outro convite para a gravação de dois singles. “Mualunga”, que falava da viagem a Portugal, “Ressurreição”, um lamento pelo deperecimento do seu amigo e companheiro do grupo Os Gingas e ainda “Muenhu ua mutu” e “Zum-Zum, estes dois de recolha popular, com Bonga nos tambores, Rui Mingas e Teta Lando nas guitarras.

 

 

Fonte: O PAÍS online

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